Você está procurando emprego, faz a entrevista, vai tudo bem — até que, no fim, vem a pergunta: “você tem CNPJ? Tem MEI? Porque aqui a gente contrata como PJ.” Nesse momento você entende que não vai ser contratado como funcionário CLT, com as garantias das leis trabalhistas, mas sim como uma empresa prestadora de serviços.
Eu não vou entrar no mérito da legalidade dessa prática — advogados trabalhistas já cobriram isso à exaustão. Meu foco aqui é outro: te ajudar a tomar uma decisão financeira acertada. Porque a proposta PJ quase sempre vem com um número maior, mais dinheiro na mão, e é fácil se empolgar. Mas será que CLT ou PJ, o que é melhor pro seu bolso? A resposta, quase sempre, não é a que parece.
CLT ou PJ: a diferença que aparece no seu bolso
No papel, a diferença entre CLT e PJ é simples: no CLT você é empregado e a empresa arca com uma série de encargos e benefícios por você; no PJ você é uma empresa que emite nota e recebe pelo serviço, sem vínculo.
Só que essa diferença não fica no papel — ela vai direto pro seu líquido. Como CLT, você recebe muito mais do que o salário que cai na conta:
- 13º salário
- Férias + 1/3 constitucional
- FGTS (8% do salário depositados pelo empregador todo mês)
- Multa de 40% do FGTS em caso de demissão sem justa causa
- Aviso prévio
- Benefícios como vale-transporte, vale-refeição, plano de saúde, auxílio-creche e, para os mais sêniores, participação nos lucros (PLR)
Tudo isso é custo do empregador — e benefício seu. Quando você vira PJ, some. E é aí que mora o erro de conta que faz muita gente perder dinheiro.
Por que a proposta PJ engana
O problema é justamente esse: a proposta PJ parece melhor porque o valor bruto costuma ser maior e cai inteiro na sua mão. Você olha “R$ 15 mil” e compara com o “R$ 8.500 líquido” que recebia como CLT e pensa: “quase o dobro!”.
Mas esse R$ 15 mil não é lucro. Dele você vai ter que tirar tudo o que a empresa pagava por você: a sua própria reserva de emergência (no lugar do FGTS), a sua aposentadoria (no lugar do INSS), o seu plano de saúde, e ainda o imposto do seu CNPJ. Quando você desconta tudo, o que sobra de verdade — a sua remuneração líquida efetiva — pode ser menor do que você ganhava no CLT.
Eu montei um vídeo passando por essa conta passo a passo, já com as regras de 2026, e com três simulações reais. Vale muito assistir antes de continuar:
Como calcular o salário PJ x CLT (o método honesto)
Pra saber como calcular o salário PJ de verdade, o caminho é montar uma “demonstração de resultado” sua, em base mensal. A lógica tem dois lados:
1. O que você realmente ganha como CLT. Não é só o salário: é o salário + 13º + férias com 1/3, mais o FGTS (8% + a provisão da multa de 40%) e o aviso prévio que o empregador guarda por você. Somando tudo e tirando INSS e Imposto de Renda, você chega no seu líquido efetivo — o que de fato chega até você ao longo do ano.
2. O que vira custo quando você deixa de ser CLT. Esse é o pulo do gato, e é o que quase nenhuma calculadora de salário PJ x CLT na internet mostra direito.
O benefício que vira custo
Pensa no FGTS. Como CLT, ele é um benefício: alguém deposita 8% do seu salário todo mês pra formar uma reserva que é sua em caso de demissão. Como PJ, ninguém faz isso por você — então, se você quiser manter a mesma segurança, aquele mesmo valor vira um custo: você é que tem que separar e guardar todo mês.
O mesmo vale pra tudo o que era benefício:
- O plano de saúde que a empresa pagava (às vezes cobrindo cônjuge e filhos) agora sai integralmente do seu bolso.
- O INSS, que valia como aposentadoria e como seguro em caso de acidente ou invalidez, precisa ser recolhido por você — ou substituído por um seguro de vida.
- Vale-refeição, vale-transporte, auxílio-creche: tudo que era desconto pequeno na folha vira despesa cheia.
É essa virada — de benefício para custo — que a maioria das pessoas esquece. E é ela que derruba o líquido de uma proposta PJ que parecia ótima.
A “regra do dobro” está certa?
Você já deve ter ouvido que “PJ tem que ser o dobro do CLT”. É uma boa regra de bolso pra levantar a guarda, mas não é uma verdade universal — o multiplicador certo depende de quantos benefícios você tem hoje e do seu regime tributário. Pra quem ganha pouco e tem poucos benefícios, pode ser bem menos que o dobro. Pra quem é sênior, com plano de saúde familiar, PLR e auxílio-creche, às vezes nem o dobro cobre.
Veja o caso do vídeo: um profissional sênior que ganha R$ 10 mil como CLT, com plano de saúde da família, auxílio-creche e PLR, recebeu uma proposta de R$ 15 mil como PJ — quase o dobro. Mesmo assim, mantendo os mesmos benefícios e pagando os impostos do CNPJ, ele terminava o mês perdendo dinheiro. (Aquela simulação rodou com as regras de 2025; com as de 2026 a diferença é menor, mas o sinal é o mesmo.)
Com as tabelas de 2026, um exemplo que dá pra conferir na calculadora agora: quem ganha R$ 8.000 como CLT, com benefícios medianos (vale-transporte e vale-refeição de R$ 600 cada e plano de saúde de R$ 2.500) e um CNPJ no Simples de 6%, precisa de uma proposta de R$ 13.531 por mês só pra empatar. Isso é 1,69 vez o salário — mais do que os 30% que a empresa costuma oferecer, e menos do que o dobro da regra de bolso.
O ponto de empate por faixa de salário
A regra do dobro tem um problema de aritmética: os benefícios que você perde são valores fixos, e o seu salário não é. R$ 1.200 de vale-transporte e vale-refeição pesam muito sobre um salário de R$ 4.000 e quase nada sobre um de R$ 20.000. Por isso o multiplicador certo não é uma constante — ele cai conforme o salário sobe.
Rodei a calculadora com as regras de 2026 em duas situações: sem plano de saúde, e com um plano de R$ 2.500, que é o caso de quem tem cobertura familiar. Cada número é a proposta PJ mínima pra você empatar — abaixo dela, você está aceitando um corte:
| Seu salário CLT | Sem plano de saúde | Com plano de R$ 2.500 |
|---|---|---|
| R$ 4.000 | R$ 7.370 (1,84×) | R$ 10.030 (2,51×) |
| R$ 5.000 | R$ 8.558 (1,71×) | R$ 11.218 (2,24×) |
| R$ 6.000 | R$ 9.283 (1,55×) | R$ 11.943 (1,99×) |
| R$ 8.000 | R$ 10.872 (1,36×) | R$ 13.531 (1,69×) |
| R$ 10.000 | R$ 12.856 (1,29×) | R$ 15.515 (1,55×) |
| R$ 12.000 | R$ 14.897 (1,24×) | R$ 17.556 (1,46×) |
| R$ 15.000 | R$ 17.958 (1,20×) | R$ 20.617 (1,37×) |
| R$ 20.000 | R$ 23.060 (1,15×) | R$ 25.720 (1,29×) |
Três coisas que essa tabela deixa claras:
- Sem plano de saúde, o dobro não é necessário em nenhuma linha — nem na mais baixa. Quem repete “PJ tem que ser o dobro” pra quem não tinha plano está pedindo mais do que a conta pede.
- Com plano familiar, o dobro só se sustenta até uns R$ 6.000. É nessa faixa que a regra de bolso nasceu — e é nela que ela morre.
- O multiplicador cai, mas o valor em reais sobe. Cuidado com a leitura ao contrário: 1,15× sobre R$ 20.000 significa R$ 3.060 a mais por mês que precisam entrar na proposta. Salário alto não deixa a conta mais fácil; deixa o número maior.
(Premissas de todas as linhas: vale-transporte e vale-refeição de R$ 600 cada, CNPJ no Simples de 6%, contador de R$ 600, seguro de vida de R$ 300 e pró-labore no mínimo, sem PLR e sem auxílio-creche. Todas elas ficam acima do teto do MEI, então o Simples é mesmo o enquadramento certo em cada uma. Mudar qualquer um desses números muda o seu ponto de empate — é exatamente pra isso que a calculadora serve.)
Por isso não dá pra confiar em regra de bolso. Você precisa fazer a sua conta, com os seus números.
A tabela acima usa premissas médias; a sua conta tem os seus números. Coloque o seu salário, os seus benefícios e a proposta que você recebeu, e veja na hora o seu ponto de empate — com FGTS, 13º, férias e impostos. Ela fica no meu site pessoal, o Finanças com Marcelo: você deixa o e-mail, ela abre na hora, e a simulação com os seus números vai junto em planilha.
Fazer a minha conta →O que mudou em 2026 (e por que vale refazer a sua conta)
Se você já fez essa conta antes de 2026, ela está desatualizada — a regra do jogo mudou no meio do caminho.
A isenção até R$ 5 mil. Desde janeiro de 2026, quem tem rendimento de até R$ 5.000 por mês não paga Imposto de Renda; entre R$ 5.000 e R$ 7.350 existe um redutor que vai diminuindo até zerar (Lei 15.270/2025). Na prática, quem ganha R$ 5.000 como CLT tem hoje R$ 347,57 a mais por mês no bolso, ou R$ 4.170,85 por ano.
As tabelas. As de IRRF (Lei 15.191/2025) e de INSS também foram atualizadas — o teto de contribuição do INSS passou para R$ 8.475,55 e o salário mínimo, para R$ 1.621.
Por que isso muda a comparação CLT × PJ: a isenção mexe só num dos dois lados. Ela melhora o líquido de quem é CLT e ganha até R$ 7.350 — e não faz praticamente nada por quem ganha acima disso. Ou seja: o valor que uma proposta PJ precisa ter pra compensar mudou, e mudou de forma diferente conforme a sua faixa de salário. Não dá pra reaproveitar a conta do ano passado.
No exemplo de R$ 8.000 acima, o ponto de empate com as regras de 2026 é R$ 13.531 por mês — com as regras de 2025, o mesmo caso dava R$ 14.542. Vale refazer a sua: a calculadora está com as tabelas novas.
📄 Usa a planilha antiga do Google Sheets? Ela é de 2025 e não conhece a isenção — prefira a calculadora, que além de estar atualizada te manda a simulação com os seus números em planilha, por e-mail.
Como a calculadora trata os detalhes que costumam sair errado
Junto com as tabelas de 2026, a calculadora foi revisada por inteiro. Três pontos valem ser ditos, porque é onde a maioria das contas de CLT × PJ — inclusive as de planilha — escorrega:
- O 13º e o terço de férias pagam imposto. Eles entram no cálculo pagando INSS e IRRF, como qualquer salário. Somar o 13º “cheio” no líquido do CLT infla esse lado em torno de 3%.
- O INSS do PJ é 11% sobre o pró-labore, não a tabela progressiva do CLT sobre o faturamento. O pró-labore é um valor que você mesmo define, com o mínimo legal no salário mínimo — por isso existe um campo próprio pra ele. Num caso de R$ 8.000, a diferença entre os dois jeitos de calcular é de R$ 929,60 para R$ 178,31 por mês.
- O DAS do MEI é INSS + ISS, não só a parcela do INSS: R$ 86,05 em 2026, e não os R$ 81,05 que muita gente anota.
MEI ou Simples Nacional: qual muda a conta?
Do lado do imposto do PJ, existem dois enquadramentos que aparecem com mais frequência:
- MEI (Microempreendedor Individual): pra quem fatura até R$ 81 mil por ano (R$ 6.750 por mês) — limite oficial no portal do governo. Você paga um valor fixo mensal, o DAS, de R$ 86,05 em 2026 — R$ 81,05 de INSS (5% do salário mínimo de R$ 1.621) mais R$ 5,00 de ISS, no caso de serviços. Simples e barato, mas atenção ao teto: a maioria dos “pejotizados” começa aqui, e quem recebe uma boa proposta estoura o limite rápido. O teto continua em R$ 81 mil desde 2018 — existe projeto de lei para elevá-lo, mas até virar lei o limite é esse.
- Simples Nacional: quando você passa dos R$ 81 mil no ano, precisa migrar. A alíquota costuma partir de 6% sobre o faturamento, mas pode chegar perto de 15,5% dependendo do seu ramo e do Fator R. Em compensação, o lucro distribuído como dividendo é isento de Imposto de Renda.
Qual enquadramento faz a conta fechar melhor depende do seu caso — e aqui vale a regra de ouro: converse com um contador. A calculadora te dá o número pra negociar; o contador confirma o enquadramento certo.
CLT ou PJ: afinal, o que é melhor?
Depois de tudo isso, a resposta honesta é: depende — e o número é só metade da história.
Do lado financeiro, a conta é objetiva: se a proposta PJ não cobre o seu líquido efetivo mais os benefícios que você perde, você está aceitando um corte de salário disfarçado de aumento. Simples assim.
Mas tem o outro lado. Ser PJ pode significar mais liberdade, a chance de atender vários clientes, deduzir despesas, crescer como empresa. Pra muita gente isso vale a pena — desde que a decisão seja consciente, e não fruto de uma conta mal feita. O perigo nunca foi escolher PJ; foi escolher PJ achando que estava ganhando mais quando estava perdendo.
O meu recado é o mesmo do vídeo: faça as contas antes de assinar. E, se topar, faça agora — leva dois minutos.
Essa conta, aliás, é um caso clássico do primeiro passo do Método Taxya — Enxergar: trocar a impressão (“R$ 15 mil é quase o dobro!”) pelo número real antes de decidir. E se você virar PJ, o método continua valendo dobrado: sem FGTS e 13º automáticos, guardar férias, impostos e reserva vira responsabilidade sua — ou seja, planejar deixa de ser opcional.
Em resumo: a diferença entre CLT e PJ não está no valor bruto, mas no líquido efetivo. Como CLT você recebe 13º, férias, FGTS, INSS pago pela empresa e vários benefícios; como PJ, tudo isso vira custo seu. Uma proposta PJ só compensa se cobrir o seu líquido de hoje mais esses custos. Não é “o dobro” pra todo mundo: com as regras de 2026, o ponto de empate vai de 1,15× a 2,5× o salário, dependendo de quanto você ganha e de quais benefícios perde. Use a calculadora CLT x PJ pra descobrir o seu valor exato — e leve o número pra mesa de negociação.